Início > Uncategorized > JÁ FAZEM PARTE DA FAMILIA

JÁ FAZEM PARTE DA FAMILIA

“Quase todo o Brasil cabe nessa foto”

– Luiz Felipe de Alencastro (historiador)

 

O filme Babás, de 2010, roteirizado e dirigido por Consuelo Lins, direção de fotografia de Pedro Ucrano, montagem de Daniel Garcia, narração de Fravia Castro, do gênero documentário, faz uma abordagem histórica e sócio-cultural sobre a função exercida pelas babás.

Foi apresentado no quarto dia dentro da programação da Mostra Competitiva Nacional do II CachoeiraDoc, festival de filmes documentários exibidos no Centro de Artes, Humanidades e Letras da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia na cidade de Cachoeira, Bahia.

Consuelo Lins, sendo uma realizadora e acima de tudo, grande pesquisadora sobre o cinema documentário tem a obra de Eduardo Coutinho como objeto de importantes trabalhos, mas nesse filme exatamente, foge do modo filme utilizado por Coutinho, conhecido por seus filmes-entrevistas.

O contexto da foto no qual se inicia esse texto, e o próprio filme, tirada em Recife em 1860, é interessante por conta dos signos que estão inseridos na imagem. A narradora divaga sobre a composição da imagem, justificando a presença da babá, somente pela presença do garoto, garoto esse que ela amamentou e transferiu todo sentimental fraternal, pois certamente seu filho legítimo lhe foi tirado, para que ela fosse sua e exclusiva ama-de-leite.

É um filme intrigante, pois desloca a referencia do espectador quando tentado a caracterizar o seu “tipo”, pensando nas modalidades de documentários definidas por Bill Nichols, em suas famosas “caixinhas”. Ora nos dá certeza de ser um filme do “modo expositivo”, principalmente quando faz uso da narração em off, e pelo levantamento histórico, como se quisesse nos dar uma aula sobre um assunto, o assunto; mas ora também transita pelo “modo observacional” quando opta pela não interação com as babás escolhidas. Então nada disso faz sentido, e depois o pensamos como um filme híbrido que pode ser tudo. E essa inquietação do espectador é fruto da inquietação da própria Consuelo Lins, sobre o seu não saber tratar com um tema que por vez passa a ser muito pessoal.

Lembra que citei nosso bom e velho Bill Nichols? Olha ele aí novamente: Em seu texto “Por que as questões éticas são fundamentais para o cinema documentário?” a ética vem para lembrar o cineasta que há conseqüências nessa relação entre quem filma e quem é filmado, estendendo também essa relação ao espectador.

Mas além de nos atentar às formas de tratamento com nosso “objeto”, há uma questão maior, no que diz respeito à como representar essas pessoas.

Como essas babás são representadas no filme? Qual o tratamento recebido pela realizadora? Condiz com a imagem presente no discurso social? Acredito que sim, reforçando a condição de submissão que soa durante a apresentação histórica e perversa com que essas profissionais sofreram/sofrem desde sua possível gênesis.

Elas não falam. Não têm opinião. São quietas. Recebem ordens e dão (devem) atenção aos nhozinhos. Filhos dos senhores que não tem tempo para tal.

Mas a voz da sinhá, nós ouvimos o filme inteiro. Ela não para. Ela sabe das coisas, está nos ensinando tudo, e pelo que ela diz temos até pena dessas pobres criaturas condenadas a cuidar dos filhos alheios, enquanto os seus próprios filhos estão sabem lá com quem em suas casas.

“Eu não podia imaginar um trabalho que me obrigasse a ficar seis dias longe do meu filho”, reflexão dita em voz off após nos apresentar Denise, sua babá há 12 anos. Imaginação, colocada grosso modo como uma capacidade de representar, relacionar, criar, inventar ou construir imagens, da qual essas babás renunciam, por um trabalho.

Como o documentário é uma representação da realidade, e não reprodução, e esse contato com a realidade se dá através da alteridade, a troca com o outro, a relação de quem filma e quem é filmado, é necessário aplicar as questões éticas no documentário (assunto já abordado).

O que nos interessa agora é a questão da alteridade. Como essa relação com outro é abordada no filme. Há duas divisões que foram percebidas durante o filme, em sua primeira parte, a fuga, a renuncia à essa alteridade, sendo um filme de apresentação, e logo as imagens servindo de ilustrações para o que é dito (e muito bem dito) nessa voz suave, mas off; e então logo depois notamos um ar de Coutinho, pois há as entrevistas e o contato com o outro, quando finalmente a criadagem pode falar, mas ó, a criadagem dos outros, pois “não me senti a vontade pra entrevistar quem ainda trabalha comigo, achei que essas conversas podiam ser comprometidas pela situação patroa-e-empregada”, ok, vamos em frente.

Mas com tanto engessamento, e mudez dessas amas-de-leite, elas gritam mais alto do que se falassem o filme inteiro. “Estamos aqui!” gritam. “Sim, o filme é sobre vocês!” notamos.

A patroa fala. As babás gritam. E nessa relação de quem fala, quem escuta e o espectador, Bill Nichols aponta o documentário como um discurso. Mas para Comolli não, e é justamente pensando nele que venho baseando o meu (pseudo) sarcasmo.

Para Comolli, em seu texto “Sob o risco do real”, o documentário não está no discurso, mas sim na práxis (na prática), ponto que podemos identificar como sendo a especificidade do documentário, se diferenciando da ficção, da disponibilidade de quem ou daquilo que escolhemos para filmar.

O documentário é cena, e não roteiro, a construção do documentário se dá ao longo do seu percurso, através da relação (fricção) dos corpos no espaço, o embate entre a misé-em-scene de quem filma com a misé-em-scene de quem é filmado, e não uma idéia ou discurso preestabelecido.

Que aponta para outro fato intrigante (eu já disse que acho esse documentário intrigante?), pois em seus créditos finais, o filme nos apresenta Consuelo Lins não apenas como diretora, mas também roteirista e Flavia Castro como narradora. Pausa dramática para refletir. E mais inquietação.

Após todo o filme, ficamos mais fascinados pelo trabalho de Consuelo Lins, uma realizadora capaz de levantar questões e tirar o espectador da zona de conforto e da passividade, portanto merecedora de todos os aplausos, elogios e respeito. Pois um documentário bem sucedido é àquele capaz de se deixar transparecer, escapar sua precariedade do fazer o filme, e colocar o espectador nesse lugar de crença e descrença do que está sendo projetado.

 

BIBLIOGRAFIA

CAIXETA, Rubens; GUIMARÃES, César. Pela distinção entre ficção e documentário, provisoriamente. In: Ver e Poder – A inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte : Editora UFMG, 2008

COMOLLI, Jean-Louis. Sob o risco do real. Ver e Poder – A inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte : Editora UFMG, 2008.

NICHOLS, Bill. Por que as questões éticas são fundamentais para o cinema documentário?. Introdução ao documentário. Campinas, SP : Papirus, 2005.

Anúncios
Categorias:Uncategorized
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: